8.7.05
De começo, as palavras
Sim, há coisas que não digo. Há palavras que não escrevo. Há gestos que não ouso, talvez por serem apenas violentos e inúteis.
Sim, eu que vim do amor absoluto da minha mãe. Oriunda sou de estórias com "e" que já não existe mais, assim como eu menina tão menina rosa, medo e recato e todo o universo de conquistas possíveis. Isso e nem uma fração disso existe mais. Porção de ingenuidade humana contrabandeada para a sobrevivência. Anêmica. Ainda muito hedonista.Minha voz inaudível não é única. Lástima. Vejo que estamos nos cantos. Todos nós. Os pios. Assistimos feito dementes o desmanchar na íntegra do projeto de um hoje melhor com um amanhã inspirado nele. Nossa terra, pátria entregue e arrasada por esquemas institucionalizados ultrajantes. São lodaçais vastos demais. Ingovernáveis. Comentamos nas rodas pequenas do poder demoníaco dos gigantes. E comentamos. E só. Enquanto as pauladas vão sistematicamente sendo dadas em nossas cabeças. Vamos achatando. Achatando. São nossas dúvidas temerárias pintando um tempo pior e se piorar, neguinho não aguenta e arrebenta a malha social com a força do desespero. Parece não demorar. Já vivemos lutando por acesso, por prazo, por desconto. Lutaremos por qualquer condição, por água e será tarde. Nascemos tarde, fazer o quê? Economizar de começo as palavras. Irritar a todos com um mínimo de sinceridade subversiva. Mas irritar. Brigar. Bater se necessário. É preciso certo descontrole para chafurdar na merda fedorenta.E eu acreditava que contaria com fazeres ilustres, com seres bons. Ah, acreditei tanto nisso. Quase um Cristo! Voei e caí há tempos na ineficácia do meu próprio querer. É meu precioso e triunfante vir-a-ser, que jaz.
Sim, há vidas que não vivo.