12.8.05

Cabeção

- Tá rindo do quê, ô cabeção? Da propaganda você tira a noção do básico, a marca do sabonete que você usa, da sua pasta de dente, do seu barbeador, do seu creme, do cereal que você come, da moda que você usa, do pão das suas manhãs, da margarina que você passa nele. E também os sonhos você tira da propaganda, o carro que você quer, o celular que você precisa ter, o móvel que você gostaria de comprar, a televisão que você deseja para dar-lhe uma noção ainda maior e mais precisa do que você é. E você me vem com essa de liberdade de escolha? Continua tomando seu refrigerante, vai, continua usando a marca de tênis que os maiores e melhores são pagos para fazer você usar. Segue tudo direitinho, seja trabalhador e consumidor. Contribua, contribua, contribua. Assim você vai longe, vai acabar é num filão bem depois de desistir de tudo. Ué? Parou de rir, ô cabeção?

12.7.05

O café

- Tome aqui a fração do que você se torna, agora bebendo na minha veia lunática e indulgente. Venha, apareça. Reconheça-se naquilo que quero e trate-me sem interesse. Engane-me. Eu ainda sou eu em você. Eu assino você. Durmo você, mas não sei se acordo melhor.Sozinho numa mesa de bar, ele falou para ninguém. Depois de apagar o cigarro pagou o café com dinheiro que não tinha.

8.7.05

De começo, as palavras

Sim, há coisas que não digo. Há palavras que não escrevo. Há gestos que não ouso, talvez por serem apenas violentos e inúteis.
Sim, eu que vim do amor absoluto da minha mãe. Oriunda sou de estórias com "e" que já não existe mais, assim como eu menina tão menina rosa, medo e recato e todo o universo de conquistas possíveis. Isso e nem uma fração disso existe mais. Porção de ingenuidade humana contrabandeada para a sobrevivência. Anêmica. Ainda muito hedonista.Minha voz inaudível não é única. Lástima. Vejo que estamos nos cantos. Todos nós. Os pios. Assistimos feito dementes o desmanchar na íntegra do projeto de um hoje melhor com um amanhã inspirado nele. Nossa terra, pátria entregue e arrasada por esquemas institucionalizados ultrajantes. São lodaçais vastos demais. Ingovernáveis. Comentamos nas rodas pequenas do poder demoníaco dos gigantes. E comentamos. E só. Enquanto as pauladas vão sistematicamente sendo dadas em nossas cabeças. Vamos achatando. Achatando. São nossas dúvidas temerárias pintando um tempo pior e se piorar, neguinho não aguenta e arrebenta a malha social com a força do desespero. Parece não demorar. Já vivemos lutando por acesso, por prazo, por desconto. Lutaremos por qualquer condição, por água e será tarde. Nascemos tarde, fazer o quê? Economizar de começo as palavras. Irritar a todos com um mínimo de sinceridade subversiva. Mas irritar. Brigar. Bater se necessário. É preciso certo descontrole para chafurdar na merda fedorenta.E eu acreditava que contaria com fazeres ilustres, com seres bons. Ah, acreditei tanto nisso. Quase um Cristo! Voei e caí há tempos na ineficácia do meu próprio querer. É meu precioso e triunfante vir-a-ser, que jaz.
Sim, há vidas que não vivo.

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